CLAVES. REVISTA DE HISTORIA
VOL. 12, N.° 23 JULIO - DICIEMBRE 2026
ISSN 2393-6584 - MONTEVIDEO, URUGUAY
Pp. 1 - 29
Por um outro amanhã: as mobilizações de
Antonieta de Barros na imprensa
(República 1931-1934)
For a different tomorrow: Antonieta de Barros
mobilizations in the press
(República 1931-1934)
Kayane do Nascimento Pinho
1
Universidade Federal de Sergipe
Orcid: https://orcid.org/0009-0000-5005-3184
Jorge Luiz Zaluski
2
Universidade Federal de Sergipe
Orcid: https://orcid.org/0000-0003-0795-263X
DOI: https://doi.org/10.25032/crh.v12i23.2569
Enviado: 25/4/2025
Aceptado: 8/6/2026
Resumo: Este texto tem como objetivo identificar e refletir sobre as publicações
da professora, escritora e política Antonieta de Barros, divulgadas no jornal
catarinense República, entre os anos de 1931 e 1934. Antonieta de Barros destaca-
se por ser a primeira mulher negra a ocupar o cargo de deputada no Estado de
Santa Catarina, Brasil. Além de sua atuação no legislativo, sobressaem
importantes ações como professora e escritora, dentre as quais se destacam suas
crônicas publicadas no jornal mencionado. As reflexões de Antonieta de Barros
são oportunas para observarmos parte de suas provocações ao contexto da época,
seus incômodos com o patriarcado e o racismo que sustentavam desigualdades
1
Mestranda em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal
de Sergipe (PROHIS/UFS) e bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de vel
Superior (CAPES). Lattes: http://lattes.cnpq.br/8907472864863389 E-mail:
kayanepinho@gmail.com
2
Doutor em História do Tempo Presente pelo Programa de Pós-Graduação em História da
Universidade do Estado de Santa Carina (Udesc), professor do departamento de História, do
Programa de Pós-graduação Profissional em Ensino de História (ProfHistória) e do Programa de
Pós-graduação em Educação (PPGED) da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Lattes:
http://lattes.cnpq.br/6749402096791048 E-mail: jzaluski@academico.ufs.br
POR UM OUTRO AMANHÃ: AS MOBILIZAÇÕES DE ANTONIETA DE BARROS...
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sociais, especialmente para mulheres negras. Em conjunto com esses
apontamentos, a escritora reivindica que mais mulheres tenham acesso ao ensino
escolar, considerando-o um dos caminhos para oportunizar melhores condições
para as mulheres.
Palavras-chave: impressos, política, educação, República.
Abstract: This text aims to identify and reflect on the publications of professor,
writer, and politician Antonieta de Barros, published in the Santa Catarina
newspaper República between 1931 and 1934. Antonieta de Barros stands out as
the first Black woman to hold the office of state deputy in Santa Catarina, Brazil.
In addition to her role in the legislature, she carried out important work as a
teacher and writer, including her noteworthy chronicles published in the
aforementioned newspaper. Antonieta de Barros reflections offer valuable
insights into the issues of her time, revealing her discomfort with the patriarchy
and racism that upheld social inequalities, particularly for Black women.
Alongside these critiques, the writer advocates for greater access to education for
women, seeing it as a crucial pathway to improving their social conditions.
Keywords: journal, politics, education, República.
Resumen: Este texto tiene como objetivo identificar y reflexionar sobre las
publicaciones de la profesora, escritora y política Antonieta de Barros, difundidas
en el periódico catarinense República entre los años 1931 y 1934. Antonieta de
Barros se destaca por ser la primera mujer negra en ocupar el cargo de diputada
en el estado de Santa Catarina, Brasil. Además de su actuación en el ámbito
legislativo, sobresalen importantes acciones como profesora y escritora, entre las
cuales se destacan sus crónicas publicadas en el periódico mencionado. Las
reflexiones de Antonieta de Barros son oportunas para observar parte de sus
provocaciones al contexto de la época, su incomodidad con el patriarcado y el
racismo que sostenían desigualdades sociales, especialmente para las mujeres
negras. Junto con estas observaciones, la escritora reivindica que más mujeres
tengan acceso a la educación escolar, considerándola uno de los caminos para
mejorar las condiciones de vida de las mujeres.
KAYANE DO NASCIMENTO PINHO; JORGE LUIZ ZALUSKI
FACULTAD DE HUMANIDADES Y CIENCIAS DE LA EDUCACIÓN, UNIVERSIDAD DE LA REPÚBLICA - 3 -
Palabras clave: impresos, política, educación, República.
1. Introdução
Com a eleição para a Presidência da República, realizada em março de
1930, o então candidato da Aliança Liberal, Getúlio Vargas (1882-1954), foi
derrotado. Embora alguns aliancistas reconhecessem a derrota, outros,
inconformados com o resultado, articularam uma conspiração para chegar ao
poder. Denominado pela historiografia como a “Revolução de 30” (Fausto 1997),
o movimento revolucionário, cujos preparativos ficaram sob a responsabilidade
de tenentes e de um grupo de civis, resultou na retirada da tradicional oligarquia
paulista do epicentro do poder, culminando na eclosão em outubro do mesmo
ano. Finalmente, em 3 de novembro de 1930, Vargas assumiu o Governo
Provisório (1930-1934), inaugurando, assim, “uma etapa decisiva do processo de
constituição do Estado brasileiro enquanto um Estado nacional, capitalista e
burguês” (De Mendonça 507). Disposto a promover uma radical intervenção
política, como nos sinalizam Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling
(2018), as intenções do governante foram muito além de uma troca de
vestimenta, da farda para o terno e gravata, revelando um projeto político que, a
longo prazo, intensificou progressivamente o autoritarismo. Como destacam as
autoras, “para institucionalizar a nova ordem, seria preciso transformar o sistema
político e consolidar um amplo programa de reformas sociais, administrativas e
política” (362), e assim o fez.
Durante os anos de 1930 a 1945, período do primeiro governo de Vargas,
“o Estado brasileiro avançou seu processo de constituição enquanto Estado
nacional e capitalista, inscrevendo na materialidade de sua ossatura pela
multiplicação de órgãos e instituições os diversos interesses sociais em jogo,
metamorfoseados em interesses nacionais (De Mendonça 492). Como nos
indicam Marieta de Moraes Ferreira e Surama Conde Sá Pinto (2022), os
impactos culturais, políticos e econômicos demarcam que, “o resultado da
Revolução de 1930, mais do que propostas do movimento em si, é que
transformou 1930 em um marco importante” (395), repleta de avanços, desafios
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e contradições, faz-se necessário identificar e compreender os efeitos, adesões,
negociações e distanciamentos de tais ações constituídas a partir desse processo.
Convencionalmente caracterizado pela centralização do poder, o regime
conferia ao Executivo o comando das políticas econômica e social, além do
controle dos aparelhos coercitivo-repressivos. Entrou em vigor, nesse contexto, o
projeto de industrialização, a partir da implantação de um núcleo de indústrias
de base, promulgação de decretos e leis de proteção ao trabalhador, bem como a
adoção do sufrágio feminino, direto e secreto. Também se destaca a criação de
organismos responsáveis pela construção da nacionalidade, ou seja, órgãos
formadores da opinião pública sobre o novo governo, além da formulação de
políticas educacionais voltadas à padronização de conteúdos pedagógicos,
currículos e livros didáticos em nível nacional.
É importante destacar que, a partir da década de 1930, as reformas
educacionais implementadas durante o governo Vargas contribuíram para
ampliar a institucionalização do ensino. Além disso, ao contribuir para forjar uma
nova concepção de infância, permitiram maior acesso à educação pelas classes
populares. Contudo, mesmo com o ingresso de meninas no sistema educacional,
distinções implícitas de gênero marcaram as propostas educacionais vinculadas
ao projeto de nação da época (Zaluski 2016, 2021).
Entre os aspectos político-institucionais característicos do regime
varguista, destaca-se que “as primeiras medidas adotadas durante o Governo
Provisório foram intervencionistas e centralizadoras, inspiradas nas
reivindicações dos setores tenentistas” (Pandolfi 16). Observa-se, de imediato, a
criação das interventorias, mecanismo importante para o controle das estruturas
políticas regionais, nas quais se nomeava um interventor subordinado
diretamente ao presidente da República. Como indica Carlos Humberto Corrêa
(1984), particularmente, no estado de Santa Catarina, o então governador Fúlvio
Aducci (1884-1955), do Partido Republicano Catarinense, que havia apoiado a
candidatura de Júlio Prestes de Albuquerque (1882-1946) e Vital Henrique
Batista Soares (1874-1933), foi destituído do cargo, sendo nomeado o general
Ptolomeu de Assis Brasil (1876-1935), sucedido por seu irmão Rui Zobaran
(1889-1954) e, posteriormente, por Aristiliano Ramos (1888-1976). Por fim, com
KAYANE DO NASCIMENTO PINHO; JORGE LUIZ ZALUSKI
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a Constituição de 1934, instituíram-se eleições indiretas no país, contexto no
qual, em Santa Catarina, Nereu Ramos foi eleito governador pela Assembleia
Legislativa em 1935, permanecendo no poder até 1945, o que consolidou a
ascensão da família Ramos no cenário político estadual.
João Henrique Zanelatto (2022), ao investigar e inventariar a imprensa
catarinense na Segunda República, identificou 23 impressos que eram publicados
em Florianópolis. Entre eles, destaca-se o República, cuja trajetória esteve
vinculada ao ideário republicano desde sua fundação, em 1889. Sua longa
circulação permite observar, ainda, as tensões provocadas pelas transformações
políticas que marcaram os anos de 1930, encerrando suas atividades em 1937.
Segundo o autor, em Santa Catarina existiam diversos jornais que “defendiam e
difundiam os interesses de grupos político (49). Contudo, a maioria dos
impressos possuía curta duração, circulando geralmente em âmbito local e
raramente alcançando todo o território catarinense. Ainda assim, mesmo com
uma existência frequentemente efêmera, esses periódicos constituíam
importantes espaços de debate político, pois, como observa o historiador, “nesses
jornais, eram evidenciadas as conexões, disputas e tensões entre os vários grupos
e forças que disputavam a hegemonia do poder político do estado (49). Tais
conflitos eram particularmente intensos, uma vez que “essas disputas eram
extremamente acirradas, tendo em vista a vasta fragmentação étnica, econômica,
geográfica e cultural que demarcava o estado” (49).
Diante da nova conjuntura política instituída na década de 1930 e do
cenário da imprensa como mobilizadora das culturas políticas, insere-se a
catarinense Antonieta de Barros (1901-1952), “uma personalidade fundamental
na história da comunicação de Santa Catarina” (Romão 150), ao integrar o grupo
de mulheres pioneiras na imprensa do estado. Desde 1923, passou a colaborar
com jornais, atuando como colunista e diretora de periódicos. Antonieta, por
vezes sob o pseudônimo de Maria da Ilha, conferiu à sua escrita uma função
política e social ao ocupar e questionar “os espaços masculinos com narrativas
femininas e, quando possível, feministas” (Romão 151).
A partir da década de 1930, Antonieta de Barros tornou-se colaboradora
do jornal catarinense República, com sua coluna intitulada Farrapos de Ideias,
um “veículo importante na construção de novos sentidos durante a formação de
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uma nova conjuntura política nacional e regional a partir da Revolução de 30
(Espíndola 107). O República foi fundado em 19 de novembro de 1889, sob a
direção do jornalista e historiador José Artur Boiteux (1865-1934), tornando-se o
primeiro jornal instituído em Santa Catarina após a Proclamação da República,
tendo circulado até 1937. Enquanto “órgão oficial do Estado Republicano de
Santa Catarina”, autodenominava-se como “intérprete fiel dos sentimentos da
população catarinense(Lunardi 97), sendo publicado diariamente e refletindo
as disputas políticas da época, com circulação na capital e em outras regiões. Após
o golpe de 1930, passou ao controle do Partido Liberal, que tinha entre seus
representantes os interventores Aristiliano Ramos e Nereu Ramos.
Consoante as observações de Tania Regina de Luca (2010), compreende-
se que o jornal República também era “instrumento de manipulação de interesses
e de intervenção na vida social” (118). Como fonte histórica, vale mencionar que,
durante o século XIX e as primeiras décadas do século XX, predominava uma
tradição historiográfica associada ao ideal da busca pela verdade dos fatos,
considerada atingível por meio de documentos vistos como “fontes marcadas pela
objetividade, neutralidade, fidedignidade, credibilidade, além de suficientemente
distanciadas de seu próprio tempo” (112). Nesse contexto, relutava-se em utilizar
jornais na escrita da História, por serem considerados inadequados à recuperação
do passado, em razão de seu caráter permeado por interesses, compromissos e
paixões, que forneciam imagens parciais, distorcidas e subjetivas da realidade.
Contudo, com a terceira geração da École des Annales, a prática
historiográfica passou por mudanças significativas nas últimas décadas do século
XX, ao propor novos objetos de estudo, problemas e abordagens metodológicas.
A partir dos anos 1970, a História total foi suplantada por uma História
monográfica, centrada nas experiências de grupos e camadas sociais antes
ignorados, inspirada pelo conceito de “história vista de baixo”, do historiador
inglês Edward Thompson. Nesse contexto, a imprensa passou a ser considerada
um importante objeto da pesquisa histórica, abandonando-se a ideia de um
“mero “veículo de informações”, transmissor imparcial e neutro dos
acontecimentos, nível isolado da realidade político-social na qual se insere” (De
Luca 118).
KAYANE DO NASCIMENTO PINHO; JORGE LUIZ ZALUSKI
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Diante desse movimento, compreendemos a imprensa tanto como
mobilizadora de uma cultura política como articuladora desse processo. Como
indica Angela de Castro Gomes (2007), analisá-la em diálogo com a cultura
política permite “explicações/interpretações sobre o comportamento político de
atores sociais, individuais e coletivos, privilegiando-se seu próprio ponto de vista:
percepções, vivências, sensibilidades” (47).
Diante do exposto, com um caráter filosófico e literário, as crônicas de
Antonieta de Barros refletiam sobre a necessidade da emancipação feminina por
meio do voto, do acesso à educação e ao mercado de trabalho como ferramentas
de igualdade e justiça social. Contudo, embora compreendesse essas pautas como
fundamentais para a superação do patriarcalismo, observa-se que seu discurso é
permeado por certas ambiguidades. Assim sendo, o presente artigo tem como
objetivo identificar as crônicas produzidas pela intelectual e, a partir disso,
analisar de que forma a catarinense utilizou seus escritos para questionar as
normas e os estereótipos de gênero vigentes na época. Nesse sentido,
compreendemos que o período analisado demarca a tensão entre concepções de
gênero naturalizadas e socialmente aceitas com reivindicações e avanços que
sinalizam pequenas rupturas com os modos convencionais de ser mulher.
Para tanto, a presente análise sustenta-se metodologicamente na análise
dos impressos a partir dos estudos da cultura política, estudos de gênero e
interseccionalidade. Nesse entendimento, apoia-se nos estudos de gênero
enquanto ferramenta de análise histórica, conforme proposta por Joan Scott
(1995). Com base nas reflexões da autora, compreende-se que “o gênero é um
elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas
entre os sexos e […] uma forma primária de dar significado às relações de poder”
(86). Logo, enquanto categoria de análise histórica, o gênero permite
compreender como os sistemas de poder que privilegiam os homens em
detrimento das mulheres são historicamente construídos e perpetuados.
Nesse sentido, observar o jornal e a atuação de Antonieta de Barros
permite compreender quais concepções sobre as mulheres estavam em circulação
naquele contexto histórico e de que maneira eram reproduzidas ou questionadas
no âmbito da imprensa. Uma vez que Antonieta atuava como articulista do
periódico, sua escrita constitui um importante espaço de análise para identificar
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tanto discursos que reforçavam concepções convencionais de gênero quanto
posicionamentos que buscavam problematizá-las e ampliar os horizontes da
atuação feminina.
Assim, ao compreendermos a escrita da catarinense como uma forma de
tensionamento das estruturas sociais e de gênero de seu tempo, percebemos que
a autora não apenas rompeu com concepções convencionais de feminilidade,
como também promoveu aberturas no campo político ao ocupar espaços
historicamente negados às mulheres. Desse modo, observar sua trajetória
permite conferir maior visibilidade à sua história e compreender como as
transformações históricas atuam de formas distintas sobre diferentes grupos de
mulheres. Além disso, evidencia como essas dinâmicas são apropriadas,
ressignificadas e reconfiguradas pelos sujeitos históricos, produzindo
experiências e trajetórias múltiplas.
Diante desse entendimento, como nos adverte Berenice Bento (2022) ao
refletir sobre se “Gênero: uma categoria útil de análise?” permanece uma questão
pertinente aos tempos atuais, torna-se necessário pensar o gênero em articulação
com outros marcadores sociais, como raça e classe, para compreender a atuação
de Antonieta de Barros. Nessa perspectiva, a interseccionalidade destaca-se no
pensamento feminista negro ao compreender que “as categorias de raça, classe,
gênero, orientação sexual, nacionalidade, capacidade, etnia e faixa etária – entre
outras o inter-relacionadas” (Collins e Bilge 16) e “produtoras de avenidas
identitárias em que mulheres negras são repetidas vezes atingidas pelos seus
entrecruzamentos” (Akotirene 14), influenciando suas experiências sociais. À
vista disso, Antonieta, como mulher negra em uma sociedade patriarcal e racista,
enfrentou um conjunto específico de desafios que marcaram sua trajetória
intelectual e política. Nesse contexto, a perspectiva interseccional constitui uma
ferramenta analítica privilegiada para compreender as articulações entre gênero,
raça e classe que atravessaram sua trajetória, permitindo observar como a autora
enfrentou múltiplas formas de opressão e, simultaneamente, elaborou estratégias
discursivas que questionavam os limites socialmente impostos às mulheres.
Embora a categoria central de análise deste estudo seja o gênero,
compreendido a partir das contribuições de Scott (1995), a perspectiva
interseccional é mobilizada como forma de compreender as articulações entre
KAYANE DO NASCIMENTO PINHO; JORGE LUIZ ZALUSKI
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gênero, raça e classe que atravessaram a trajetória de Antonieta de Barros, sem
perder de vista que o foco desta investigação recai sobre as representações e
relações de gênero presentes em suas crônicas.
Por cultura política, compreendemos, tal como nos sinaliza o historiador
Serge Berstein (1988), um “grupo de representações, portadoras de normas e
valores” (35). Nessa perspectiva, investigar sobre e a partir da imprensa,
especialmente a escrita de uma mulher negra, permite identificar, refletir e
compreender aspectos do contexto histórico, bem como perceber como, por meio
dos enunciados impressos nos jornais, “se inscreve no quadro das normas e dos
valores que determinam a representação que uma sociedade faz de si mesma, do
seu passado e de seu futuro” (Berstein 353). Assim, os enunciados presentes nos
jornais analisados neste estudo possibilitam identificar disputas em torno do
político enquanto espaço público e de poder, vinculadas à configuração dos
partidos e tensionadas pelas múltiplas linguagens que os cercam. Nesse sentido,
como adverte Berstein (2003), é nesse campo que “se situa a mediação política
e, como assinala o autor, “é precisamente uma das tarefas do historiador que
trabalha com as forças políticas tentar perceber essa distância, fundamental para
compreensão dos fenômenos históricos, entre a realidade e o discurso(61). À
vista disso, Antonieta de Barros tensiona as normas vigentes por ser mulher,
negra e de classe popular. Sua atuação como professora, escritora e deputada,
além de representar um ato político de ocupação desses espaços, também
desestabiliza uma cultura política em vigor, especialmente no âmbito dos
partidos, ao mesmo tempo em que produz novos entendimentos capazes de
redefinir os sentidos da própria cultura política.
Em vista disso, a abordagem fundamentada nos estudos de gênero, na
interseccionalidade e na cultura política seguiu as orientações de De Luca (2010)
acerca das possibilidades de mobilização da imprensa na investigação
historiográfica. Com base nas contribuições da autora, o estudo levou em
consideração a identificação das fontes, do período e do contexto de produção,
sua localização nos acervos, suas características materiais, a organização do
conteúdo, a funcionalidade estética do material, os grupos responsáveis pela
publicação, o público ao qual se destinava, seus colaboradores e a problemática
que orienta esta pesquisa, qual seja, a atuação política de uma escritora,
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professora e deputada mulher e negra. Como assinala De Luca (2010), a
variedade da fonte imprensa é enorme e suas possibilidades de pesquisa são
amplas e variadas” (141). À vista disso, selecionamos as crônicas produzidas por
Antonieta de Barros como um dos caminhos para a compreensão da problemática
proposta.
Destarte, a presente pesquisa debruça-se sobre suas crônicas escritas para
o jornal República, adotando-as como objeto de estudo. Publicadas entre os anos
de 1931 e 1934, as crônicas analisadas abrangem o período compreendido entre o
início da colaboração de Antonieta de Barros no impresso e sua primeira eleição
como deputada estadual de Santa Catarina (1935-1937), momento em que
interrompe seus escritos. Portanto, é sobre esse recorte, as crônicas de 1931 a
1934, que se centra o presente trabalho. Ademais, suas crônicas eram utilizadas
como manifestos políticos, nos quais demonstrava “concordância com a
construção e a articulação política pelos direitos das mulheres, publicando sua
posição de adesão, militando a seu modo e de acordo com suas crenças e
convicções” (Romão 200).
Desse modo, a partir da identificação e da análise de edições do jornal
República, destacam-se a seguir as fontes históricas que viabilizaram o
desenvolvimento desta pesquisa, disponíveis no portal Hemeroteca Digital
Catarinense:
Tabela 1. Publicações em prol dos direitos das mulheres e reflexões
sobre normas e estereótipos de gênero
Edição
Data Da Publicação
Conteúdo Principal
1
N 269 - Ano I
12 de setembro de 1931
Reflexão sobre a supremacia
masculina.
2
N 417 - Ano II
06 de março de 1932
Crítica à literatura feminina.
3
N 423 - Ano II
13 de março de 1932
Crítica à inércia feminina.
4
N 526 - Ano II
17 de julho de 1932
Sufrágio feminino.
5
N 954 - Ano II
03 de setembro de 1933
Desigualdade de gênero na educação
em Santa Catarina.
6
N 30 - Ano I
15 de abril de 1934
Emancipação feminina.
Fonte: Hemeroteca Digital Catarinense. Org: Autores, 2025.
KAYANE DO NASCIMENTO PINHO; JORGE LUIZ ZALUSKI
FACULTAD DE HUMANIDADES Y CIENCIAS DE LA EDUCACIÓN, UNIVERSIDAD DE LA REPÚBLICA - 11 -
Vemos, portanto, que o presente estudo desenvolve-se no estado de
Sergipe, enquanto as fontes históricas foram escritas e publicadas em Santa
Catarina, evidenciando, assim, que sua viabilidade se deve à historiografia dos
novos tempos, sintonizada com as características da Era Digital (Barros 2022),
na qual as tecnologias da informação tornaram-se aliadas das pesquisas
historiográficas, à medida que facilitam o acesso a um vasto acervo de
informações e recursos, como documentos históricos, esses que, mediante o
acesso à internet, podem ser acessados em qual localidade, ampliando as
possibilidades de pesquisa. Segundo Anita Lucchesi (2014), “na transição do
analógico para o digital, como muito antes a passagem da tradição oral para uma
tradição alfabética, criam-se novas formas de expressar e dispersar informações.
Emergem desse caldo novas formas de escrever e ler” (47). Nesse sentido,
observa-se que a história digital contribuiu para democratizar a preservação e o
acesso de fontes históricas, por meio da oportunidade em ampliar as
investigações e possibilitar novas perspectivas de pesquisa.
Diante disso, este estudo tem como objetivo analisar, à luz da categoria de
gênero enquanto ferramenta de análise histórica, as principais temáticas
relacionadas à condição da mulher na época, abordadas nas crônicas de
Antonieta de Barros, com foco em questões como o direito ao voto, o acesso à
educação e a inserção no mercado de trabalho. Além disso, busca-se discutir de
que forma a escritora utiliza suas crônicas para questionar os estereótipos e as
normas de gênero vigentes no período, refletindo, ainda, sobre as ambiguidades
presentes em seu discurso, com base nos estudos de gênero. Acreditamos que este
trabalho permite perceber como a escritora utilizou o espaço de privilégio que
ocupava como jornalista no República para contribuir com a luta pelos direitos
das mulheres e romper com uma estrutura social de opressão e controle, mesmo
que sua escrita seja atravessada por certas ambivalências, dado o contexto da
época.
Parte-se da hipótese de que, nas relações de gênero de seu tempo, as
crônicas de Antonieta de Barros atuam como discursos que evocam a intervenção
política e social, por meio do qual a autora questiona as desigualdades de gênero
vigentes em seu tempo. Ou seja, utiliza-se dos meios de comunicação para expor
suas reivindicações por ser mulher, negra e pobre. Sustenta-se, ainda, que esse
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discurso não se constitui de forma homogênea, sendo atravessado por
ambiguidades que sinalizam para as contradições entre ideias de emancipação e
a permanência de valores normativos. Por fim, considera-se que essas tensões
não se configuram incoerências, sendo antes expressões dos limites e das
possibilidades de atuação de uma mulher negra intelectual inserida em um
contexto histórico marcado por hierarquias de gênero, raça e classe.
Parte-se do entendimento de que os discursos de Antonieta de Barros
foram produzidos em um contexto histórico específico e, portanto, devem ser
analisados a partir das possibilidades e limites de seu tempo. Nesse sentido, as
ambiguidades identificadas em suas crônicas não são compreendidas como
incoerências individuais, mas como expressões das tensões entre projetos de
transformação social e valores amplamente compartilhados na sociedade da
época.
Para desenvolver a análise proposta, o artigo estrutura-se em duas etapas
articuladas. Na primeira, discute-se a trajetória de Antonieta de Barros, situando
sua atuação no campo educacional, intelectual e político. Na segunda, examinam-
se as crônicas publicadas no jornal República entre 1931 e 1934, com o objetivo
de identificar suas reivindicações em favor das mulheres, bem como as tensões e
ambiguidades presentes em seus discursos sobre gênero.
2. A trajetória de Antonieta de Barros
Em 11 de julho de 1901, nasceu, em Florianópolis, Antonieta de Barros.
Filha de Catarina Waltrick, que, assim como sua avó materna, Maria do
Nascimento, foi uma mulher negra escravizada na cidade de Lages, em Santa
Catarina, e de Rodolfo José de Barros. Antonieta foi uma intelectual negra que se
interessou pelas letras ainda jovem, fazendo da educação “sua estratégia de
sobrevivência e existência” (Romão 105).
Em 1912, aos 11 anos de idade, concluiu o segundo ano da Escola Feminina
junto com sua irmã, Leonor de Barros (1903-1973), na capital florianopolitana.
Anos mais tarde, em 1918, submeteu-se aos exames de admissão para a Escola
Normal Catarinense, ingressando em fevereiro do mesmo ano. Enquanto
normalista, Antonieta editou e dirigiu a revista Buliçosa, tornou-se cofundadora
e presidente da primeira diretoria do Centro Cívico das Normalistas, uma
KAYANE DO NASCIMENTO PINHO; JORGE LUIZ ZALUSKI
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iniciativa de ativismo estudantil e, logo após formar-se pela Escola Normal
Catarinense, em 1921, fundou com sua irmã o Curso Primário Antonieta de
Barros, que funcionava em sua residência.
Entre os anos de 1923 e 1924, passou a escrever para periódicos como o
Jornal de Joinville, O Elegante e a Revista Panal. Foi também cofundadora da
Liga do Magistério Catarinense (LMC), entidade representativa de docentes,
assumindo o cargo de primeira secretária. Em 1925, passou a integrar a direção
do Centro Catarinense de Letras, uma instituição literária fundada “a partir de
uma disputa existente entre intelectuais oriundos das camadas populares, muitos
deles negros, e a Academia Catharinense de Letras, que agregava a elite das
letras do Estado” (Espíndola 58). Em 1929, estreou a epígrafe Farrapos de
Ideias no jornal dos estudantes do Instituto Politécnico, intitulado Folha
Acadêmica”. Finalmente, em 1931, inaugurou sua coluna de mesmo nome no
jornal República.
Em 1933, foi nomeada professora da Escola Complementar Lauro Müller,
tornando-se titular das disciplinas de Português e Literatura. Um ano após a
conquista do sufrágio feminino no Brasil, alistou-se como eleitora e, em 1934,
lançou sua candidatura à Assembleia Legislativa de Santa Catarina pelo Partido
Liberal Catarinense (PLC), inserindo-se em um cenário político marcado por
disputas intensas e por resistências à participação de mulheres. De tal maneira,
disputou o processo com o enfrentamento a distintas situações em desvantagem
para a época, dentre elas, ser mulher, negra e pobre, pois também não integrava
os grupos políticos convencionais e elitistas da época. Logo, a atuação de
Antonieta de Barros, desde seu processo de formação escolar, docente, escritora
e de inserção no cenário político, demarca um processo de resistências as
múltiplas limitações experenciadas na época. Assim, tanto insurge contra uma
cultura política sustentada pela atuação de homens e brancos nesses espaços,
como desmobiliza essa estrutura com uma pequena brecha sendo a primeira
mulher negra a ocupar o espaço legislativo.
Diferentemente de uma narrativa linear que sugere acesso direto ao cargo,
sua eleição deve ser compreendida à luz do processo eleitoral e das dinâmicas
partidárias da época. Inicialmente, Antonieta ocupou a posição de primeira
POR UM OUTRO AMANHÃ: AS MOBILIZAÇÕES DE ANTONIETA DE BARROS...
- 14 - CLAVES. REVISTA DE HISTORIA, VOL. 12, N.º 23 - (JULIO - DICIEMBRE 2026) - ISSN 2393-6584
suplente do PLC, alcançando a 18.ª colocação em um pleito no qual seu partido
conquistara 17 cadeiras. Apenas após a apuração final dos votos, a interposição
de recursos e mudanças na ocupação das cadeiras, dentre eles a saída do
candidato eleito Leônidas Coelho para assumir o cargo de prefeito na cidade de
Caçador, sua posição foi revista, passando a ocupar a 17colocação, o que lhe
garantiu a efetivação como deputada estadual. Esse percurso evidencia, portanto,
que sua chegada ao parlamento não foi imediata, mas resultado de um processo
marcado por disputas e mudanças políticas que vão muito além da conquista de
votos, sendo essa parte importante, mas não único.
É válido, ainda, destacar que a inserção de Antonieta na chapa partidária
tampouco pode ser compreendida como um movimento isolado ou casual. Sua
candidatura esteve vinculada a um contexto mais amplo de mobilização feminina
em Santa Catarina, no qual se destaca a figura de Ignez Rochadel de Oliveira,
militante ligada ao Partido Liberal Catarinense e atuante na defesa do sufrágio
feminino. Nessa conjuntura, a criação de comitês femininos, como o de Itajaí em
1929, e a atuação de mulheres no interior do partido foram fundamentais para a
construção de um ambiente político que possibilitasse a indicação de uma
candidatura feminina em 1934.
Além disso, a trajetória de Antonieta nos indica um conjunto de condições
que favoreceram sua projeção política. Aqui destacamos que sua atuação prévia
em espaços de organização coletiva, como o movimento estudantil e o magistério,
sua inserção no campo intelectual como jornalista e escritora, assim como sua
proximidade com setores influentes do PLC, especialmente o grupo político
ligado à família Ramos, configuraram elementos decisivos para sua legitimação
como candidata. Soma-se a isso o fato de ser uma professora reconhecida,
proprietária de escola e figura blica atuante na defesa da educação e das pautas
femininas, o que lhe conferia visibilidade em uma sociedade ainda fortemente
marcada por hierarquias de gênero, raça e classe. De tal maneira, sua atuação
nesses espaços não implica em afirmar que estava livre de misoginia e racismo,
por exemplo.
Sua candidatura também se insere no contexto do movimento sufragista
brasileiro, sendo apresentada como uma forma de representação das mulheres
catarinenses no espaço legislativo. Desse modo, ao aceitar a indicação do partido,
KAYANE DO NASCIMENTO PINHO; JORGE LUIZ ZALUSKI
FACULTAD DE HUMANIDADES Y CIENCIAS DE LA EDUCACIÓN, UNIVERSIDAD DE LA REPÚBLICA - 15 -
a catarinense assumiu publicamente o compromisso de defender pautas como a
educação e os direitos do magistério, categoria majoritariamente feminina, além
de se posicionar, ainda que de forma situada e estratégica, em relação às
demandas feministas em circulação naquele período.
Importa, ainda, destacar que sua campanha eleitoral não esteve isenta de
resistências em que setores conservadores da sociedade catarinense
manifestaram oposição à presença feminina na política, e sua candidatura
enfrentou críticas e protestos públicos. Ainda assim, Antonieta percorreu
diferentes regiões do estado, participou de comícios e contou com o apoio de
redes femininas, especialmente de professoras, consolidando uma campanha
que, embora atravessada por conflitos, foi capaz de mobilizar um forte eleitorado
(Romão 220-221).
Tornou-se, assim, a primeira mulher negra a ocupar esse espaço no Brasil.
Após a posse, presidiu as Comissões de Educação e Cultura e do Estatuto do
Funcionalismo Público na Assembleia Constituinte de Santa Catarina, quando
também apresentou a iniciativa de lei que criou o concurso blico para o
magistério. Entretanto, teve seu mandato interrompido devido à cassação
imposta pela ditadura estadonovista, em 1937.
Posteriormente, com o encerramento do governo de Vargas, em 1947, foi
lançada a sua candidatura para as eleições daquele ano pelo Partido Social
Democrático (PSD), antigo Partido Liberal Catarinense (PLC), e em 1948,
assumiu seu segundo mandato como deputada estadual, integrando as Comissões
de Educação e Saúde e de Orçamentos e Contas da Assembleia Legislativa de
Santa Catarina. Nesse período, apresentou o projeto de lei que instituiu o Dia
do(a) Professor(a), propôs a criação da Escola Profissional Feminina e
apresentou ainda um projeto para a fundação de ginásios escolares, “como
política pública para a ampliação dos anos de estudos das camadas mais pobres
(Romão 342). Em 1951, aposentou-se do magistério blico e, em 28 de março de
1952, faleceu por complicações decorrentes do diabetes, em Florianópolis.
Nesse sentido, vemos que, enquanto educadora, jornalista e parlamentar,
Antonieta de Barros dedicou sua vida à luta contra as desigualdades sociais,
deixando um legado que permanece na memória coletiva daqueles que
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encontram em sua vida e obra inspiração para uma sociedade mais justa e
igualitária.
Ao mesmo tempo, como mulher negra e de origem popular, sua escrita
reflete os obstáculos produzidos pelo racismo estrutural e pelo patriarcado, que
restringiam o acesso de pessoas negras e mulheres aos espaços de prestígio e
poder. Nessa perspectiva, à luz do pensamento interseccional, compreendemos
que “a avenida estruturada pelo racismo, capitalismo e cisheteropatriarcado, em
seus múltiplos trânsitos, nos revela quais são as pessoas realmente acidentadas
pela matriz de opressões” (Akotirene 29). Em consonância com as observações de
Daiana da Silva e Christiane dos Santos Luciano (2022), segundo as quais
“mulheres negras em suas singularidades, mesmo que atravessadas por diversas
opressões, ao longo da história de resistência da população negra, foram movidas
por suas experiências de re-existência, de driblar as desigualdades históricas,
econômicas e sociais” (285), compreendemos a trajetória de Antonieta de Barros
como parte desse movimento de resistência.
Assim, Antonieta não apenas questionou as desigualdades de seu tempo,
mas também inscreveu suas experiências e reivindicações no espaço blico,
construindo outros futuros para si e para outras mulheres negras das classes
populares, resistindo às exclusões e afirmando sua atuação como professora,
escritora e política.
No que diz respeito às crônicas de Antonieta de Barros, identifica-se um
conjunto de reflexões voltadas à crítica das desigualdades entre homens e
mulheres, aspecto que será analisado a seguir.
3. As crônicas de Antonieta de Barros
Em seus escritos, a estratégia discursiva empregada por Antonieta de
Barros indica a anuência com a construção e a articulação política pelos direitos
das mulheres, o que pode ser compreendido, à luz dos estudos de gênero, como
uma forma de questionamento as hierarquias historicamente construídas entre
homens e mulheres. Para Jeruse Romão (2023), a autora,
tinha consciência de que o reconhecimento do lugar da mulher na sociedade
brasileira e catarinense ainda era um desafio. Apesar de não ter assumido um
KAYANE DO NASCIMENTO PINHO; JORGE LUIZ ZALUSKI
FACULTAD DE HUMANIDADES Y CIENCIAS DE LA EDUCACIÓN, UNIVERSIDAD DE LA REPÚBLICA - 17 -
discurso radicalizado, entendia que o lugar que a mulher ocupava, no seu tempo, não
expressava aquele que merecidamente deveria ocupar (206).
À vista disso, baseando-se na narrativa bíblica a respeito da criação do
homem e da mulher, a crônica publicada em 12 de setembro de 1931 busca
questionar a suposta supremacia masculina e a exclusão das mulheres dos
processos civilizatórios e democráticos. Temos deste modo as seguintes
provocações,
A criação do homem. A sua primazia na existência. Snra. CIVILIZAÇÃO. Os factos,
séculos a dentro, confirmando o trabalho divino.
Quando Deus fez o mundo, achou, depois de muito trabalhar devia rematar sua obra
dum modo mais elevado, soberbo, grandioso.
Foi, então que fez o homem, “a sua imagem e semelhança”;
Era a perfeição magna da obra divina, contudo não era o fim.
Depois do homem, para amenizar-lhe a existência no Paraíso (donde se reduz a vida
é, na sua essência, fastidiosa, visto que, até no Eden, havia possibilidade da criatura
enfadar-se) Deus criou a mulher, isto é, uma costela de Adão corporificada.
Assim rezam as noticias sôbre o monumental trabalho do Grande Arquitecto.
Ao homem, portanto, é impossível negar-se, coube a primazia na existencia, mas, de
modo nenhum, a exclusividade.
Depois de Adão, veio a Eva.
Rolaram séculos e séculos e, pêla fôrça do direito, ou pêlo direito da força, Adão tem
sido o monopolizador da soberania na vida.
Mas Civilização, senhora acatadíssima e respeitável, depois de muita cousa
interessante, pôs, no cartaz, a nivelação dos direitos de Adão e Eva (uma espécie de
democracia) e a descoberta de inteligência feminina.
Dái para cá, entre a barulhada do Jazz e Cia., Eva, numa guerra surda, mas
perseverante, invade, em todos os pontos, os domínios masculinos e procura
derrubar o poderio de Adão.
Roma e Cartago…
Grande tem sido a grita de um lado, e não menor o avanço do outro.
Todavia, analisando os factos, chega-se á conclusão de que, dentro da vida, os ciclos
se succedem, inevitável e ininterruptamente.
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E, se nada é novo bre a terra, o cartaz de Mme. Civilização indica apenas, a
repetição, quando á ordem, do trabalho divino: até agora, a exclusividade; dagora
em diante, tão somente, a primazia.
Maria da Ilha
República [Florianópolis, Brasil], sep. 12, 1931: 1.
Utilizando-se de refinada ironia, as provocações de Antonieta de Barros
questionam a manutenção de uma ordem social hierárquica que, sob a
perspectiva da categoria de gênero, evidencia relações de poder estruturadas
entre masculino e feminino. Elizabete Maria Espíndola destaca que a escritora
“discorda do sentido religioso que coloca o homem como criação perfeita, pelo
fato de representar a imagem e semelhança de Deus, e a mulher apenas como um
complemento ou distração para os momentos de tédio” (150), pois essa
interpretação evidencia uma estrutura hierárquica de privilégio masculino. Sua
crítica centra-se, portanto, na contradição existente entre os ideais de progresso
científico e civilização, pois “carregava um falso discurso de inclusão das
mulheres pela via democrática” (150).
Desse modo, em uma sociedade patriarcal que performava as
desigualdades de gênero, o discurso de progresso não rompeu com o machismo e
o patriarcalismo, já que tais discursos eram produzidos por homens e permeados
por distinções de gênero. Na prática, impunha-se às mulheres a opressão, a
exploração e a dominação que as subjugavam. Assim, a crítica de Antonieta de
Barros, por meio do jornal República, propõe um novo discurso com vistas ao
rompimento das desigualdades.
Ela investe em uma narrativa que parte do viés religioso, não para reforçar
a suposta superioridade masculina, mas para criti-la, apoiando-se no discurso
bíblico como ferramenta para questionar as desigualdades entre homens e
mulheres. Afinal, se Deus teria feito a mulher da costela do homem para
garantir a igualdade, onde ela estaria? Por que as mulheres seriam impedidas
de ter a mesma liberdade que os homens? Sua crítica também perpassa a
desigualdade no campo intelectual entre homens e mulheres, que, em sua
concepção, tem origem no atraso educacional imposto a elas, uma vez que o
KAYANE DO NASCIMENTO PINHO; JORGE LUIZ ZALUSKI
FACULTAD DE HUMANIDADES Y CIENCIAS DE LA EDUCACIÓN, UNIVERSIDAD DE LA REPÚBLICA - 19 -
acesso das mulheres ao ensino foi tardio e completamente generificado (Zaluski
2020).
Assim, na coluna de 6 de março de 1932, a catarinense reflete sobre a
literatura feminina, que compreende como instrumento de educação e estímulo
ao pensamento crítico. No entanto, esse aspecto é negligenciado quando se
analisa a escrita literária das mulheres, frequentemente tida como superficial e
excessivamente sentimental.
São os próprios homens que depois se riem da fala de cultura e do pieguismo da
quase totalidade das mulheres.
Tudo é natural e o reflexo da falta de comedimento, com que escrevem os artifices
da ideia.
A literatura chamada feminina é escassa, escassíssima.
E, além de minguada, ainda vem repleta de pieguismo, pieguices, e virgem,
completamente virgem de ideias.
Literatura para convalescente.
Diante disto, fica se obrigada a ler baboseiras, ou ler pieguices, ou fazer, como aquele
sujeito do Camilo - se não me engano: - abster-se de leitura e comer batatas, para o
embrutecimento completo do espírito.
Não cabe, pois á Mulher a responsabilidade do seu fraquíssimo desenvolvimento
cultural, mas a quem a fechou na muralha de preconceitos e lhes escreveu livros,
quando as ideias, propriamente ditas, dormiam.
Enfronhado-se nesta leitura óca, fatalmente, consequentemente, logicamente,
formarão o espírito ó sua imagem e semelhança.
República [Florianópolis, Brasil], mar. 6, 1932: 1.
Ao analisar o excerto, percebe-se que a autora responsabiliza a sociedade
pelo deficitário nível educacional das mulheres, compreendido como resultado
da falta de investimentos e dos preconceitos que as mantêm enclausuradas. Para
Antonieta de Barros, os estudos e o ensino direcionados às mulheres são
completamente distintos daqueles destinados aos homens. Para a escritora,
“ficar-se obrigada a ler baboseiras ou ler pieguices” seria uma forma de limitar as
mulheres e reforçar a suposta feminilidade como algo natural, atribuindo a elas
tarefas como os afazeres domésticos, o cuidado com os filhos, o marido, a casa,
ou mesmo com o fantasioso romantismo. Assim, a literatura e a escrita
produzidas por mulheres eram subjugadas e inferiorizadas.
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Compreendemos, portanto, que, por mais que essas narrativas
endereçadas às mulheres visassem reforçar as desigualdades entre os gêneros,
também exibem conhecimento, compartilham ideias e saberes. Contudo, o que se
questiona, segundo a crítica de Antonieta, é a limitação imposta às mulheres a
esses espaços, o uso desses discursos para sustentar a ideia de que estariam
predestinadas à serviência. Em um contexto social de que, como destaca Guacira
Lopes Louro (2004),
Sob diferentes concepções, um discurso ganhava a hegemonia e parecia aplicar-se,
de alguma forma, a muitos grupos sociais a afirmação de que as “mulheres deveriam
ser mais educadas do que instruídas”, ou seja, para elas, a ênfase deveria recair sobre
a formação moral, sobre a constituição do caráter, sendo suficientes, provavelmente,
doses pequenas ou doses menores de instrução. Na opinião de muitos, não havia
porque mobiliar a cabeça da mulher com informações ou conhecimentos, já que seu
destino primordial – como esposa e mãe – exigiria, acima de tudo, uma moral sólida
e bons princípios. Ela precisaria ser, em primeiro lugar, a mãe virtuosa, o pilar da
sustentação do lar, a educadora das gerações do futuro. A educação da mulher seria
feita, portanto, para além dela, que sua justificativa não se encontrava em seus
próprios anseios ou necessidades, mas em sua função social de educadora dos filhos
ou, na linguagem republicana, na função formadora dos futuros cidadãos (373).
Diante do exposto, na publicação de 13 de março de 1932, a autora discute
a importância do papel da mulher na formação moral e social dos indivíduos.
Apesar de seu pensamento estar em consonância com a ideia de que “o magistério
era visto como uma extensão da maternidade, o destino primordial da mulher
(Louro 377), fruto do processo de feminização da docência, defende que é por
meio do acesso à cultura e da conquista de independência, pois, é através dos
direitos políticos e sociais que as mulheres poderão se reconhecer como
indivíduos plenos. Considera, ainda, que transitar das tarefas do espaço
doméstico para as instituições de ensino possibilitaria muitas outras
oportunidades, mostrando que a predestinação ao espaço privado não era um
destino imutável.
Dessa forma, Antonieta infere que as mulheres precisam superar essa
“inércia criminosa” e assumir um papel social mais ativo e consciente. Somente
assim se alcançaria um verdadeiro progresso, pois “não era afeita à vinculação da
figura da mulher às representações ilustrativas de enfeite para o universo
KAYANE DO NASCIMENTO PINHO; JORGE LUIZ ZALUSKI
FACULTAD DE HUMANIDADES Y CIENCIAS DE LA EDUCACIÓN, UNIVERSIDAD DE LA REPÚBLICA - 21 -
masculino, de realeza do lar ou, ainda, associando-as a temperamentos dóceis ou
posturas submissas” (Romão 205). Logo, a educação escolar das meninas e
mulheres, conforme defendida por Antonieta de Barros, para além da crítica do
reforço das distinções desiguais de gênero, contribuiria de, ao menos, duas
grandes formas: primeiro, ao permitir que as mulheres pudessem usufruir de
outros espaços, posições e profissões; e segundo, ao ampliar sua noção de mundo,
promovendo uma educação de caráter libertador. Como podemos observar,
E, se dizemos entre as mulheres, é tão somente por serem elas, que no lar e na escola,
lançam as pedras básicas, o alicerce da moral do indivíduo futuro.
São elas que amalgamam o caráter informe, modelam, ajeitam, retocam, infiltrando-
lhe no espírito crédulo, dócil, ductil e cândido, as leis morais e sociais que, indeleveis,
ficarão e pêlas quais se dirigirá o homem, quando a evolução natural o atirar no
mar encapelado da sociedade.
Tem feito muito a Mulher, levada pêla sensibilidade natural por êste quid divino que
empresta ás mães o dom da intuição.
Falta-lhe, porém, na quase totalidade dos casos, o conhecimento das agruras da vida
e das mil e uma tempestades á que está sujeita a melhor das creaturas.
A alma feminina se tem deixado estagnar, por milhares de anos, numa inércia
criminosa.
Enclausurada por preconceitos odiosos, destinada a uma ignorância ímpar,
resignando-se santamente, candidamente, ao deus Destino e á sua congênere
Fatalidade, a Mulher tem sido, de verdade, a mais sacrificada metade do gênero
humano.
Tutelada tradicional, irresponsável pelos seus atos, boneca-bibelot de todos os
tempos, não possui firmeza bastante para transmitir aos educandos, sentimentos
que lhe dão o conhecimento plenos de todas as angústias, e passíveis casos, fruto do
egoísmo humano, que o amor á Humanidade, manda abater […], abater sempre, até
o triunfo integral, o qual não é do que dispõe de mais força, mas de que melhor sabe
terçar as armas.
República [Florianópolis, Brasil], mar. 13, 1932: 1.
Assim sendo, a escritora critica a histórica marginalização das mulheres,
que permaneceram em estado de inércia e aprisionadas por convenções sociais
que as impediram de se desenvolver como indivíduos autônomos. Mesmo que na
época pequenos avanços tenham ocorrido, tal como sua conquista ao legislativo.
Em consonância, nas publicações de 17 de julho de 1932 e 3 de setembro de 1933,
a autora celebra os avanços da sociedade da época, como a conquista do direito
POR UM OUTRO AMANHÃ: AS MOBILIZAÇÕES DE ANTONIETA DE BARROS...
- 22 - CLAVES. REVISTA DE HISTORIA, VOL. 12, N.º 23 - (JULIO - DICIEMBRE 2026) - ISSN 2393-6584
ao voto pelas mulheres no Brasil, a partir do Decreto n 21.076, de fevereiro de
1932, que instituiu o Código Eleitoral, e reflete sobre os obstáculos que ainda
persistem para a ampla integração das mulheres nas esferas política e social.
As feministas brasileiras estão vencendo a última etapa, na campanha por que tanto
se bateram: a conquista dos direitos políticos.
Não encontramos, na concessão do voto á Mulher, nada mais do que uma
interpretação certa á letra da nossa Constituição de 91.
E, se êsse triunfo não nos deixou indiferente, sem sermos feminista, foi por ter le
alcançado pela fôrça do direito.
As conquistas sólidas dos Ideias são as que se fazem bre os alicerces da Razão,
rompendo trevas, fazendo luz, com tato, sem as discórdias que enfraquecem, sem os
interesses subalternos que amesquisam e aviltam
República [Florianópolis, Brasil], jul. 17, 1932: 1.
Nesse sentido, o pensamento de Antonieta alinha-se à ideia com base nas
observações de June Edith Hahner (1981), de que “a supressão dos direitos da
mulher traria prejuízos à nação, retardando o progresso geral” (118). Sendo que,
com a elaboração de um manifesto que se assemelha a uma Declaração dos
Direitos da Mulher”, pela Federação Brasileira para o Progresso Feminino, em
maio de 1928, “tornou-se claro que os direitos políticos não eram meros
privilégios a serem transmitidos por capricho daqueles que estavam no poder,
mas sim direitos inalienáveis, cuja negação representava uma grave injustiça à
mulher brasileira” (Hahner 118).
Além disso, Antonieta expressa preocupação com o acesso reduzido das
mulheres catarinenses ao ensino superior. A escritora critica o fato de que o Curso
Normal, voltado à formação de professoras, era a única opção disponível para
muitas delas, e que o Ginásio não permitia a matrícula de mulheres, impedindo-
as de prosseguir nos estudos. Para Antonieta, “tais limites ocorriam […] pelo fato
de esses serem espaços masculinos e elitizados, fundados por governos
anteriores. Disso decorria um claro limite ao acesso à educação pelas mulheres,
bem como por sujeitos oriundos das classes populares” (Espíndola 162).
Há, por todo êste Brasil, horizontes sem fim, em perspectiva, diante das capacidades
femininas.
A Mulher avança, a passos rápidos, na conquista de todos os direitos, embora a sua
pretenção á política representasse um fragoroso fracasso de estréa.
KAYANE DO NASCIMENTO PINHO; JORGE LUIZ ZALUSKI
FACULTAD DE HUMANIDADES Y CIENCIAS DE LA EDUCACIÓN, UNIVERSIDAD DE LA REPÚBLICA - 23 -
Foi o comêço e todo o comêço é árido.
A evolução natural dos povos tinha de derrubar e arrastar, diante de si, a muralha
gigantesca das convenções que espíritos amantes do tradicionalismo queriam á viva
fôrca conservar.
Na derrota feminina nas eleições para a Constituinte, não vimos, como disse grande
escritor patricio, a maldade das mulheres para com as mulheres, mas, simplesmente,
o que temiamos - a falta de independencia moral em que, sempre, se acorrentou o
sexo fraco.
Os frutos da Rotina não se despedaçam com simples golpes da audácia.
São precisas marteladas infinitas, dissabores sem conta, para que se vislumbre um
raio de luz, em tão intensa treva.
Enquanto as moças dos outros Estados conseguem, facilmente, todos os seus desejos
relativos á instrução, as catarinenses são enclausuradas dentro da pequenina cultura
dum Curso Normal que não lhes dá mais regalias senão a de serem professoras.
Os preparatorios ginasiais tornaram se, hoje, a chave para o ingresso em todos os
estabelecimentos superiores de cultura artistica ou não.
As moças catarinenses, a não ser as que dispuserem de grandes recursos
financeiros, estão impossibilitadas de se aparelharem para as grandes conquistas.
O nosso Ginásio não permite que o sexo fraco frquente as aulas.
E não se cogita de regularizar esta situação
República [Florianópolis, Brasil], sep. 3, 1933: 1.
Entretanto, ao referir-se às mulheres, a autora utiliza a expressão “sexo
fraco”, termo carregado de estereótipos que sugere fragilidade, inferioridade ou
dependência em relação aos homens. Trata-se de uma concepção enraizada em
estruturas patriarcais e frequentemente mobilizada para legitimar relações de
dominação e controle sobre as mulheres. Segundo Pierre Bourdieu (2014), tais
desigualdades são socialmente produzidas por meio de associações generificadas
que vinculam força, autoridade e poder aos homens, enquanto atribuem às
mulheres características como fragilidade, doçura e submissão. Para o autor, o
mundo social constrói o corpo como realidade sexuada e como depositário de
princípios de visão e de divisão sexualizantes” (24). Nesse contexto, embora
Antonieta de Barros reproduza uma expressão amplamente difundida em sua
época, seus escritos tensionam os significados tradicionalmente atribuídos às
mulheres ao defender sua participação na vida pública, na educação e no
POR UM OUTRO AMANHÃ: AS MOBILIZAÇÕES DE ANTONIETA DE BARROS...
- 24 - CLAVES. REVISTA DE HISTORIA, VOL. 12, N.º 23 - (JULIO - DICIEMBRE 2026) - ISSN 2393-6584
trabalho. Dessa forma, contribui para questionar a ideia de uma suposta
“fraqueza” feminina, compreendida aqui como resultado de uma construção
social que concebe a mulher como o Outro e como “inessencial” em relação ao
homem, elevado à condição de sujeito universal. Assim, o emprego do termo
evidencia as ambiguidades presentes em seu discurso, pois, ao mesmo tempo em
que reproduz categorias de seu contexto histórico, também contribui para
desestabilizar os limites impostos às mulheres e ampliar as possibilidades de sua
atuação social e política.
Diante disso, na crônica de 15 de abril de 1934, Antonieta discute a
importância das mulheres no processo de desenvolvimento da sociedade,
criticando a resistência às mudanças e a visão tradicional que mantém as
mulheres à margem social. A autora defende que a evolução é inevitável e que as
mulheres devem ser reconhecidas como seres essenciais e autônomos,
reforçando, ainda, a necessidade do “reconhecimento do direito ao pensamento,
à reflexão, à tomada de decisão, ao desenvolvimento do cérebro feminino e à
inteligência, deixando de estar à margem ou à sombra dos homens” (Fontão 176).
Dessa forma, a partir da análise da publicação, infere-se que a catarinense
advogava pela emancipação feminina, apontando a necessidade de as mulheres
assumirem-se como agentes sociais, recusando-se a aceitar a passividade e a
dependência.
Acode-nos, então, á mente a pergunta que deve existir em todo cérebro feminino,
neste momento:
Que seremos nós, as Mulheres? Irracionais ou domesticadas?
Porque essa questão de inteligências e aptidões femininas, ora em foco, se resume,
digamos de passagem, em classificar a Mulher entre as criaturas superiores ou entre
irracionais.
Se ela é um ser superior, tem o direito líquido de agir, pensar, trabalhar, ser
indivíduo.
Se não é superior, que se contente em viver á sombra, na cômoda, mas degradante
situação de parasita, pois que a decantada maternidade é missão e não profissão.
Não somos feminista, se se entende por feminismo a aspiração política, cigarro á
bôca, etc.
Daí não nos poderem julgar despeitada.
A Mulher teve, até pouco, as regalias de bibelô caro, de qualquer cousa
quebradiça e de alto preço, para a qual todos tinham olhares, sorrisos, gestos e
atitudes protetorais.
KAYANE DO NASCIMENTO PINHO; JORGE LUIZ ZALUSKI
FACULTAD DE HUMANIDADES Y CIENCIAS DE LA EDUCACIÓN, UNIVERSIDAD DE LA REPÚBLICA - 25 -
E isso está agonizante e querem reviver.
Foi a êsse ridículo que roubaram a Mulher.
Não discutimos direitos. Apontamos necessidades, a cousa única que tem poderes
discricionários sôbre todos os seres.
Se a evolução mental do nosso povo não aceita, ainda, a Mulher, como indivíduo,
não lhe pode negar a necessidade, que tem todo vivente, de comer.
Os irracionais trabalham, lutam para a conquista do seu alimento. E a Mulher?
(Porque tudo não se resume no vestido, como, erroneamente, se pensa.)
Inferior aos próprios irracionais, domestica e domesticada, se contentará,
eternamente,
em constituir a mais sacrificada metade do gênero humano?
Maria da Ilha
República [Florianópolis, Brasil], abr. 15, 1934: 1.
Por fim, entre os discursos selecionados para este texto, destaca-se a
crônica de 15 de abril de 1934, na qual a escritora reforça sua crítica à condição
social da mulher da época, denunciando a opressão estrutural à qual ela estava
sujeita, bem como a negação de sua individualidade e autonomia. Para Antonieta
de Barros, a sociedade em questão não apenas negava à mulher a condição de
indivíduo pleno, como também a instruía a conformar-se com um papel de
serviência. Diante disso, a autora questiona a passividade imposta às mulheres,
invocando a necessidade de conscientização e de luta por igualdade de direitos,
um tema para o qual acreditava não haver espaço para a indiferença, sendo
essencial para assegurar a emancipação feminina.
4. Considerações finais
Utilizando-se de crônicas escritas e publicadas por Antonieta de Barros no
jornal catarinense República, entre os anos de 1931 e 1934, o presente texto
analisou a forma como a autora fez uso do espaço de privilégio que ocupava como
jornalista para questionar as normas e os estereótipos de gênero vigentes à época,
tecendo críticas às desigualdades sociopolíticas entre homens e mulheres.
Desse modo, destaca-se que os discursos selecionados para este estudo
dialogam com sua trajetória, à medida que refletem os caminhos que percorreu
até tornar-se professora, escritora e política diante de suas marcações como
mulher negra e pobre. Esses caminhos são compreendidos como reflexos de uma
vida dedicada à luta pela educação e à consciência do que a condição de mulher
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simbolizava, especialmente por ter suas experiências atravessadas por opressões
como o racismo e o patriarcalismo.
Nesse sentido, Antonieta assume um papel ativo na defesa da conquista de
direitos pelas mulheres, compreendendo que o acesso à educação, o direito ao
voto e a inserção no mercado de trabalho são ferramentas essenciais para a
emancipação feminina, uma vez que rompem com uma estrutura social
hierárquica de privilégio masculino, que objetivava manter as mulheres em
estado de inércia, aprisionadas por convenções sociais que as impediam de
desenvolver sua individualidade e autonomia.
Assim, a partir do entendimento de que “os meios de comunicação de
massa são parte constitutiva dos fenômenos sociais que marcam as memórias
sociais e as narrativas históricas contemporâneas, ao assumir papel de destaque
na formação dos códigos que constituem as culturas políticas” (Arend e Lohn 11),
destaca-se que Antonieta de Barros, por meio de sua atuação intelectual,
contribuiu para ampliar as possibilidades de participação das mulheres,
especialmente das mulheres negras, nos espaços da educação, do jornalismo e da
política. Ao ser pioneira, sua trajetória demarca a abertura e o tensionamento de
estruturas sociais historicamente excludentes e rígidas, exigindo novas
configurações da cultura política que levem em consideração a atuação de
mulheres negras nos espaços que ela rompeu ao tornar-se a primeira a ocupá-los,
mas, ao longo do tempo, não a única, pois suas mobilizações contribuíram para
instituir outros futuros.
Entretanto, quando analisado à luz da categoria de gênero, o discurso de
Antonieta de Barros revela tensões e, por vezes, reproduz ideias conservadoras
que reforçam normas e estereótipos de gênero, contribuindo para a manutenção
de estruturas patriarcais. Ainda assim, sua atuação como mulher negra,
professora, escritora e deputada desestabiliza a ordem social de seu tempo e
amplia as possibilidades de participação feminina nos espaços de poder. Assumir
essas tensões é parte do próprio ofício do(a) historiador(a), que não deve reduzir
sujeitos históricos a narrativas heroizantes nem a leituras anacrônicas, mas
compreender os limites, as possibilidades e as estratégias de atuação em seu
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FACULTAD DE HUMANIDADES Y CIENCIAS DE LA EDUCACIÓN, UNIVERSIDAD DE LA REPÚBLICA - 27 -
contexto. Assim, explorar tais contradições não implica desqualificar sua
trajetória, ao contrário, permite aprofundar sua compreensão histórica.
Desse modo, o pensamento e a atuação de Antonieta de Barros não podem
ser reduzidos a essas ambiguidades, uma vez que se inserem em um contexto
marcado pelas primeiras mobilizações das mulheres enquanto movimento social,
assim como pela pluralidade de suas pautas. À vista disso, sua trajetória evidencia
a resistência de uma mulher negra em uma sociedade estruturada pelo
patriarcado e pelo racismo, cujos efeitos permanecem presentes na
contemporaneidade. ◊
Obras citadas
Fontes
República [Florianópolis, Brasil], sep. 12, 1931.
República [Florianópolis, Brasil], mar. 6, 1932.
República [Florianópolis, Brasil], mar. 13, 1932.
República [Florianópolis, Brasil], jul. 17, 1932.
República [Florianópolis, Brasil], sep. 3, 1933.
República [Florianópolis, Brasil], abr. 15, 1934.
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